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sábado, 25 de outubro de 2014

Dois microcontos de Lorena Santos




       CHINÊS

                                                    

Levantou e foi buscar um café. "Maldita dor de cabeça!"  Uma dor fina, aguda, o dia arruinado.
- Como se uma agulha esguia e comprida atravessasse o crânio e perfurasse o cérebro, sabe? Um chinês de longos bigodes segurando a extremidade da agulha e empurrando-a lentamente.
- Por que um chinês?
Agora pronto! Uma dor dos infernos, uma suadeira depois do café, um calor da peste e ainda essa pergunta: 
- Por que não? Chinês não pode? 
- Só perguntei!
- A dor é minha, ué? Se é chinês, japonês, árabe, que diferença faz? 
- Esquece! 
Se arrependeu da resposta grosseira, mas não pediu desculpa! Pedir desculpa exigiria tempo, explicações, enfrentar o chinês, puxar-lhe os bigodes, imobilizá-lo. Entrou no quarto, fechou as cortinas e deitou-se. 
Ouviu a porta batendo. “Agora foi!” Pensou no quanto a resposta atravessada ainda ia render em acusações de grosseria, egoísmo, falta de cuidado. Sabia que não adiantaria, mas tentaria explicar:
            - Foi o chinês!









                                                                        OPOSTOS 




Dormia a maior parte do dia. Ocasionalmente acordando para beber ou comer algo. Na verdade, era sempre a mesma coisa. Ele comia sempre a mesma coisa. Espreguiçava-se, mas com elegância. Caminhava até a cozinha lenta e silenciosamente.  Tomava então um gole, comia um pouco e voltava a dormir. Às vezes na cama, às vezes na sala de estar, no sofá. Ia para lá, para a sala, quando desejava só um cochilo,  quando o barulho da digitação dela não incomodava seu sono.
          De tempos em tempos, ela o assustava um pouco, ao apoiar o copo na mesa de vidro com mais força, ao empurrar uma cadeira ou deixar cair uma caneta no chão. Ele olhava para ela, com seus grandes e brilhantes olhos verdes, e fixava ali o olhar. Poucos minutos depois, voltava a dormir. Passava os dias assim, confinado, praticamente estático.
Quando acordado, ou estava comendo, ou olhando, ora para ela, ora através da janela. Raramente emitia som. A vida dela, por outro lado, era repleta de idas e vindas, de altos e baixos, diferentes interesses e possibilidades, angústia e alegria, sonhos e frustrações. Não tinham nada em comum, mas ela voltava para ele, todos os dias. Ele lhe fazia companhia.









Doutora em Letras pela UNB, a jovem escritora Lorena Santos é tradutora-intérprete, ainda sem livro solo publicado. Mora em Brasília (DF), de onde vem disseminando seus escritos em prosa e verso através de www.innerbabel.blogspot.com.br, seu blog pessoal. As imagens são do extraordinário artista chinês Zhang Dali, nascido em Harbin em 1963, um dos principais ícones da arte urbana no Oriente. 
  

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